segunda-feira, 16 de abril de 2018

A Bela e a Fera - Madame de Villeneuve

Os contos de fadas parecem que sempre estiveram aí. Nem sempre sabemos rastrear a origem das histórias passadas a nós pelo hábito da oralidade. Os filmes clássicos da Disney foram empreitadas que, para além de questionarmos o sucesso e a qualidade, certamente contribuíram para um imaginário um tanto quanto equivocado no que diz respeito à fonte primária das histórias adaptadas - algo já mencionado aqui na resenha de Alice no País das Maravilhas
Ainda que conquistando o grande feito de sedimentar os contos de fadas na consciência infantil a despeito da época, pois filmes da Disney realizados na década de 40 repercutiram na infância dos anos 90 e além, é proveitoso expandir o horizonte para além dos musicais animados e conhecer qual é a história sendo adaptada e readaptada tantas vezes. A leitura de A Bela e a Fera é, portanto, um tipo de resgate.


A edição da Clássicos Zahar - Bolso de Luxo traz duas versões da história. A original, de 1740, escrita por Madame de Villeneuve e a adaptação feita por Madame Beaumont em 1756. Acredita-se que a segunda seja a mais popular e tenha inspirado as adaptações ao longo do século, dado ser uma história mais sucinta.
A edição traz também o excelente prefácio de Rodrigo Lacerda que situa o leitor quanto às adaptações, apresenta a trajetória das autoras com base no que há documentado e discute pontualmente a relação entre o amor e a humanidade nas histórias - mais especificamente o quanto a transformação de fera em humano depende da absoluta sujeição da mulher que ama sem medidas. 

É difícil, portanto, empreender-se na leitura de A Bela e a Fera e não se lançar às discussões de gênero. Eis porque o prefácio de Lacerda se faz importante: auxilia a contextualizar a obra no século XVIII e a evitar projeções injustas ou precipitadas. Ainda que a versão de Villeneuve apresente uma Bela mais questionadora - e por sua vez uma Fera indubitavelmente mais agressiva - a história está enraizada em seu tempo. Se devemos encará-la como um testemunho de sua época, que seja justamente para o exercício de compreender porque ela centraliza a história em torno da filha submissa de um comerciante e de um príncipe complexado. Essa representação será acentuada na versão de Beaumont, publicada numa revista para jovens mulheres da época com o intuito de ensiná-las a vida que lhes dizia respeito. Beaumont foi a típica exceção da mulher letrada na França de 1700 e sendo muito afeita à pedagogia encontrou na revista a forma de dialogar com o público feminino. Sua versão da história é consideravelmente menor que a de sua antecessora e objetiva o ensinamento moral da obediência ao pai e da abnegação.  

Ainda que não seja possível afirmar a correlação dos eventos, a trajetória das autoras diz muito sobre as histórias produzidas: ambas encontraram no casamento a possibilidade de pavimentar os caminhos da escrita. A Bela e a Fera, portanto, é o resultado de experiências e visões singulares de um momento díspar do atual. Nem por isso deve-lhe ser negada a curiosidade do porquê continua rendendo tantas adaptações e persistindo ao longo dos já somados 278 anos.

A Bela e a Fera
Madame de Villeneuve/Madame de Beaumont
Zahar
2016
400 páginas.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Linha M - Patti Smith

Dizem que ela foi a primeira mulher a tocar no CBGB. É a responsável por hinos como Ask the Angels, Dancing Barefoot, Redondo Beach, Gloria, Because the Night e, claro, People Have the Power. Em 2016, realizou a cerimônia de entrega do Nobel a Bob Dylan cantando A Hard Rain's Gonna Fall - emocionou-se tanto que interrompeu a música e pediu para começar de novo. Apesar de célebre, ainda assim Patti Smith parece ser altamente única e sofisticada para ser marcada sob a palavra celebridade.

Sofisticada porque em Linha M conseguimos vislumbrar a poeta Patricia Lee Smith, amante das literaturas francesa e japonesa e metodicamente cuidadosa com o café da manhã degustado no 'Ino Café, então localizado no bairro nova-iorquino de Greenwich Village.

Com livros de poesia originalmente publicados na década de 70, no Brasil há apenas as traduções das prosas Só Garotos, de 2010, e Linha M, de 2015. O último transita entre a autobiografia e a memória, mas não se constitui enquanto tais no sentido convencional.  Patti Smith não está preocupada com a linha cronológica de sua vida nem com as conquistas emblemáticas da carreira artística, mas sim em revelar-se como alguém ainda  em luto pela morte do marido, buscando significados extraordinários nos afazeres cotidianos.

Bebericar o café preto com torradas mergulhadas no azeite, a cada manhã, é o ritual que inaugura as horas introspectivas de Smith. Entre uma mastigada e outra, relembra viagens da juventude e doenças da infância. Eventos transformados em literatura por uma escritora que consegue tirá-los de si e lançá-los ao público. Entre eles, a viagem à Guiana Francesa com o intuito de conhecer as históricas instalações da colônia penal de Saint Laurent - curiosidade de Smith motivada por sua relação com a figura do literato Jean Genet que teria cobiçado ser preso no local. Igualmente significativa é a sua palestra proferida ao Instituto Alfred Weneger confabulando sobre as últimas horas do explorador alemão cuja morte é envolta por mistério. Somente alguém como Smith para atribuir poesia à história de alguém famoso por teorias climáticas. Somente ela, também, para palestrar na Casa Azul de Coyoacán e descansar na cama de Diego Rivera ao sentir-se mal.

Escrito em primeira pessoa, Linha M é tanto um mergulho na introspecção de Smith, como um narrador-personagem a cuja consciência temos acesso, quanto um diálogo travado diretamente com ela. É claro que Smith monopoliza a fala: tem muito a dizer e o faz sedutoramente. Gostamos de ouvir suas ponderações sobre literatos como Roberto Bolãno e Ryunosuke Akutagawa, sobre o seu hábito de assistir seriados policiais e de viajar apenas para ficar nos quartos de hotéis. É bom ouvir Smith falando de suas experiências porque além de poéticas nos ensinam um bocado - aprendemos que uma praia no Queens pode ser intimista e que na Biblioteca Pública de Nova York está exposta a bengala de Virgínia Woolf - entre tantas outras historietas. Rica é também a lista de literatos citados a todo momento, desempenhando papel formador na artista. Smith é uma voz sábia, mas nada moralista, e por isso encanta.

Linha M é uma leitura absolutamente leve e tranquila. Não importa se conhecemos a Patti Smith musicista antes ou depois da escritora. Se for ao mesmo tempo, também é igualmente proveitoso. O que importa é conhecê-la. Abram o livro ouvindo o álbum Easter

Linha M
Patti Smith
Cia. das Letras
2016
216 páginas. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Sejamos todos feministas - Chimamanda Adichie

Inicialmente, Sejamos todos Feministas foi uma conferência proferida por Chimamanda Adichie no famoso ciclo de palestras TedTalk. em 2012. À época, a autora já havia publicado os romances Hibisco Roxo e Meio Sol Amarelo mostrando haver consolidado, tal qual tantos outros autores na literatura internacional, a narrativa privilegiada de alguém que transita entre dois mundos - o nigeriano e o estadunidense.

Dada a ampla repercussão, a palestra foi transcrita e publicada. O resulto é um livro acessível, seja pelo preço ou pelo número de páginas, que mantém o tom professoral de Adichie. Se o título pode causar um sobressalto aos desavisados pois, conforme a autora argumenta,  feminismo ainda é uma palavra geradora de assombros; as páginas trazem a abordagem prosaica do complexo assunto da condição feminina na contemporaneidade.

Ao longo das cinquenta páginas do seu discurso, Adichie vai costurando o feminismo enquanto palavra, conceito e experiência. A linha utilizada é a sua própria vivência de ser mulher nascida e criada na Nigéria. Ao trazer relatos da infância e juventude, a autora faz com que a problemática dos papéis de gênero seja vislumbrada no cotidiano. Este é o tom professoral e o recurso narrativo que faz compreender o porquê do sucesso da palestra.

Sejamos todos Feministas é um livro simples e leve. A leitura corre rápido nas páginas que não trazem debates filosóficos ou a preocupação rigorosa de conceitos analíticos acerca da mulher. É uma outra via para discutir o feminismo, mas é oportuna e legítima. De uma leitora que ainda não se debruçou sobre os romances de Adichie, permanece o palpite de que a posição singular da mulher negra transitando entre Nigéria e Estados Unidos seja um excelente fio condutor para as histórias que a autora deseja contar. Este livro é excelente para ler no ônibus, na pausa do trabalho, no café da livraria - cabe em qualquer bolso: no financeiro e no da roupa. É a perfeita opção para apresentar o debate aos homens e às mulheres, não importa o momento. 

Sejamos todos feministas
Chimamanda Adichie
Cia. das Letras
2015
64 páginas. 



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O segundo sexo: fatos e mitos Vol. I - Simone de Beauvoir

Livros costumam portar o fenômeno de serem lidos sem terem sido abertos. Ao transportarem ideias resistentes ao tempo - porque seguem propagadas mesmo à luz de novas interpretações e não porque são perenes -, esses veículos literários transformam-se em símbolos. Título e autor são bem elaborados na memória de um grupo; assim, sabemos que Machado de Assis escreveu algo sobre a suposta traição de uma mulher, chamada Capitu, em Dom Casmurro. George Orwell discorreu sobre um regime autoritário e a vigilância constante em 1984; Kafka é quem apresenta a transformação grotesca de um homem em um inseto em A metamorfose. Os exemplos de obras consolidadas na consciência, a despeito da leitura, são vários e ultrapassam o gênero Romance. Sem dúvidas, O Segundo Sexo encontra-se em meio a esse fenômeno: é sabido que uma filósofa francesa dedicou-se à análise da condição feminina e tornou-se indispensável em qualquer referência ao tema. 


Ainda que a percepção geral acerca de um livro não-lido possa permitir determinadas inferências positivas acerca dele, ela também é responsável pelo equívoco que ronda determinadas obras, causando-lhes a fogueira das ideias. A melhor forma de inteirar-se sobre um livro ainda é lê-lo, digeri-lo e buscar novas fontes caso o tema desperte interesse. Não importa o quão dispensável de apresentações seja Dom Casmurro, ele necessita ser lido a fim de ser conhecido. Todos nós sabemos que há algo chamado o grande irmão, mas qual o lugar dele na literatura orwelliana somente a leitura nos permitirá conhecer. E se assumirmos que Kafka esteja meramente narrando uma maluca transformação literal de Gregor Samsa em barata, por não abrirmos efetivamente Metamorfose, perderemos a excelente discussão metafórica sobre as mudanças angustiantes da vida. 

Publicado originalmente em 1949, O segundo Sexo contempla o exercício analítico de Beauvoir de rastrear os princípios conformadores da relação entre os sexos no curso das sociedades humanas. O exercício é de cunho filosófico, dada a formação da autora, mas ainda assim dialoga com outras ciências do comportamento humano, como a etnologia e a psicologia. Na Introdução, são apresentados os pressupostos de Beauvoir de que a mulher constitui-se como a alteridade máxima na relação com o homem. Enquanto este é capaz de estabelecer-se como sujeito uno, absoluto, capaz de ser interpelado sem ser remetido a outros sujeitos; a mulher é o outro relativo, aquela cuja existência é condicionada a do homem. Esse tratado acerca da alteridade acompanha os demais capítulos do livro, intencionando buscar no pensamento ocidental e na história das sociedades as razões para a mulher ser o Outro. 

Na primeira parte, analisa os pensamentos biológico, psicanalítico e materialista histórico, concluindo que ainda que eles tenham produzido classificações relevantes para o significado da mulher - como o gonadismo sexual, o complexo de édipo e a luta de classes -, nenhum deles é suficiente para responder porque a mulher é a alteridade. 

Na segunda, empreende uma discussão transcultural e histórica ao afirmar que o mundo, desde as primeiras sociedades rurais até a França de 1950, sempre pertenceu ao machos. Beauvoir não ignora as particularidades temporais e culturais de cada civilização, mas identifica em todas elas aquilo que chama de redução ao gineceu, ou seja, como a mulher sempre foi definida e posicionada a partir do sexo. É neste capítulo que a autora também destaca alguns fatos surpreendentes, entre eles, que o aborto não era um crime até o estabelecimento do cristianismo no Império Romano e, pasmem, que na França as mulheres votariam pela primeira vez apenas em 1945. 

No terceiro e último capítulo, Beauvoir discute a caracterização da mulher na literatura com um tom impiedoso a autores como Balzac e Breton. A todo momento remete-se ao contexto francês e traz figuras que podem ser pouco conhecidas pelo público brasileiro, como Gerárd de Nerval que não foi traduzido no Brasil. Porém, a mensagem da parte que encerra esse primeiro volume é clara, ainda que os literatos trazidos por Beauvoir nos sejam desconhecidos: reconhecer a humanidade na mulher não empobrece a experiência do homem. Este nada perde, tampouco trata-se de destruir dramaticamente toda e qualquer relação entre os sexos. O objetivo de Beauvoir é discutir a hipertrofia da mulher que somente existe para o outro e não para si. 

Como é esperado de um livro filosófico, seu conteúdo é denso e quem deseja dominar os conceitos elaborados pela autora deverá realizar uma leitura absolutamente atenciosa. Porém, isto não deveria constranger aqueles que desejam se arriscar à leitura, ter um vislumbre de quem foi Beauvoir, a filósofa feminista tão famosa. É um livro do qual podemos (e devemos) nos aproximar como qualquer outro. A compreensão e os modos de abordá-lo vêm com o tempo, mas só vêm com a leitura. 

O segundo sexo: fatos e mitos Volume I
Simone de Beauvoir
Editora Nova Fronteira
2016
342 páginas. 


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

As bruxas Mayfair: A hora das bruxas Vol. I - Anne Rice

Anne Rice é uma autora contemporânea, natural de Nova Orleans, e responsável pelo livro cuja adaptação cinematográfica tornaria emblemática a dupla de vampiros interpretada por Tom Cruise e Brad Pitt no homônimo Entrevista com Vampiro. Entretanto, é dispensável dizer que os livros de Rice sustentam-se por si mesmos, tal qual a escritora que finca seus pés no território conhecidamente masculino da literatura de terror - desde Poe a King.  

Assim como demais gêneros literários, o terror e a fantasia promovem o afastamento de uns e a aproximação de outros, por vezes gerando a percepção de que para apreciá-los é necessária a afinidade máxima com o estilo. Se esse recado pode ser ignorado pela legião de fãs que Rice acumula inclusive em terras brasileiras, ele é bem-vindo àqueles que gostariam de acrescentar ao repertório o gênero de terror mas ainda não sabem onde buscá-lo. Se Poe é a referência mais clássica e King certamente a mais midiática, Rice combina sofisticação e modernidade e apresenta-se, portanto, como a perfeita escolha para quem deseja conhecer o terror sem abrir mão da qualidade literária. 

Em Bruxas de Mayfair, encontramos 500 páginas que percorrem os séculos XVII e XX com a história multi-situada da família Mayfair iniciada na Escócia, transcorrida pela França aristocrática e pelo Haiti colonial, até repousar na Nova Orleans e na São Francisco contemporâneas. Quem nos apresenta o compêndio de tantos séculos e lugares é a organização Talamasca, representada especialmente pelo emissário Aaron Lightner, que desde o século IX reúne informações sobre ocorrências sobrenaturais. A fim de conectar a história antiga da família Mayfair com a atual, prestes a ser vivida ao longo da obra, acompanhamos Rowan Mayfair, a bruxa mais jovem da tradicional família misteriosa. 

Por figurar tantos momentos e espaços distintos, observa-se o esforço de Rice em fornecer uma narrativa histórico-arquivística que nos leva aos séculos passados por meio dos manuscritos da Talamasca que acompanham a família Mayfair desde sua suposta origem. Aliada à narrativa do presente que por força da trama coloca personagens interagindo com os manuscritos tais quais o leitor, Rice fornece um tom altamente realista à leitura dos arquivos. Sentimo-nos como que lidando com arquivos verdadeiramente históricos e com um "sobrenatural" tão plausível que por isso mesmo assusta. Rice consegue criar uma complexa árvore genealógica cujas relações de parentesco devem permanecer claras ao leitor para a boa compreensão da história. E não pensem se tratar de muitos personagens citados mas poucos elaborados; nesta trama, os nomes não são meros vocativos. 

Proporcionando experiência singular do terror, Rice brinda a literatura com uma trama histórica totalmente voltada às poderosíssimas mulheres Mayfair. Esqueçam os chavões do terror, os exageros da violência e o sobrenatural caricato - traços muito comuns às produções audiovisuais do gênero. Em Bruxas de Mayfair temos a potência da tradição e o desconhecido que quer se revelar sem perder a profundidade. Temos o esforço, representado pela Talamasca, de ordenar o incompreensível. 

Feliz ou infelizmente, a parte contemporânea da trama, vivenciada por Rowan, é abordada no segundo volume, de mesmo título. Encerra-se o primeiro sem ter avançado no século XX. Há décadas e páginas ainda por virem para finalmente descobrirmos qual será a relação estabelecida entre Rowan e suas ancestrais. Apesar de extensa e documental, a leitura é dinâmica e essas características, somadas ao número de páginas, não devem espantar os interessados. 

As bruxas Mayfair: A hora das bruxas Vol. I
Anne Rice
Editora Rocco
1994
490 páginas. 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Tesouros de Curitiba e Outras Histórias - Valter Cardoso

 Estamos acostumados a ler histórias fantásticas que se passam numa França medieval ou em uma Londres contemporânea. Com histórias futuristas que se passam nos Estados Unidos já seculos à frente ou até mesmo com uma bela trama situada em Marte. Em suma, é sabido que a literatura não tem fronteira alfandegária, uma vez com o livro em mãos, viajamos para onde a história decidir nos levar. Entretanto, o quão acostumados estamos com o enredo que se passa em nossa cidade natal? A literatura sempre teve suas cidades expoentes e no caso da brasileira não seria diferente. Acentuar Curitiba no mapa literário, portanto, é uma consequência muito bem-vinda desta coletânea de 12 contos cujas histórias se passam na capital paranaense. 

O conto que nomeia o livro é o carro-chefe da leitura não só por ser o primeiro no índice, mas porque comprova ser possível transformar qualquer cidade com a potência criativa. Nele, somos apresentados ao aposentado Zulmiro que, na busca por emoções alheias à agência da previdência social, vê-se às voltas com uma Caça ao Tesouro iniciada em um bar da cidade. Após ter vencido um concurso de enigmas e ganhado um pager antigo, Zulmiro começa a receber instruções misteriosas a serem decifradas percorrendo pontos emblemáticos da cidade, como a Biblioteca Pública e a Rua Vinte Quatro Horas. Ao longo da leitura, sentimos o assombro que invade o aposentado e nos compadecemos da necessidade de termos uma aventura vez ou outra.

Combinando o futurismo tecnológico à historicidade dos locais curitibanos, somos levados a uma Curitiba que apesar de ainda estar por vir, demonstra reatualizar a velha fórmula das relações sociais entre privilegiados e esquecidos. Esse é o tom que perpassa "Bolacha Recheada", por exemplo, em que a fome de um catador de papel nos faz ponderar sobre a arrogância e o julgamento precipitado. 

Já em "A Jornada", a chuva outonal traz consigo a introspecção e a preguiça que assolam o personagem numa tarde fria. A Oficina de Criação literária, que o espera com calor contrastante à estação, desponta como motivação para encarar o mundo fora de casa. "Previsão do Tempo" também aborda a célebre questão climática de Curitiba, mas o faz de maneira divertida e inédita: junto à bagunça temporal das quatro estações ocorridas no mesmo dia (como diz a velha crença curitibana) está a bagunça temporal da data. Sol e chuva confundem-se tal qual passado e presente. 

"Tesouros de Curitiba e Outras Histórias" brinda-nos com uma homenagem singular à cidade. Nativo ou estrangeiro, todos estão convidados a provar do refrigerante de gengibirra enquanto caminham pelo petit pavê que faz deslizar suavemente pela leitura. 

Tesouros de Curitiba e Outras Histórias
Valter Cardoso
Editora Fragmentos
2016
150 páginas.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Globalização, Democracia e Terrorismo - Eric Hobsbawm

Eric Hobsbawm é célebre referência dentre os intelectuais historiadores. Nascido no Egito durante o domínio britânico, percorreu sua trajetória política e intelectual na Inglaterra e faleceu aos 95 anos em 2012. A longa trajetória é marcada pela produção de obras de continuidade do seu pensamento, como a coleção Eras (Das Revoluções, Do Capital, Dos Impérios e  Dos Extremos), e trabalhos mais pontuais como História Social do Jazz.

Globalização, democracia e terrorismo, porém, reúne dez conferências ministradas pelo autor que visam problematizar as questões emergentes do ataque às torres do World Trade Center, em 2001, na cidade de Nova York. Para Hobsbawm, o "11/09" não necessariamente se configurou como algo inusitado nas relações internacionais, mas escancarou que o corolário do século XXI é composto pela tríade nomeadora do livro. 

A coletânea é esclarecedora porque Hobsbawm decifra conceitos recorrentes no imaginário da história internacional, como "imperialismo" e "nacionalismo", mas o faz de maneira acessível e objetiva. O trunfo deste procedimento é possibilitar que o livro tenha uma maior aderência entre o público alheio às ciências humanas, mas que busca um esclarecimento sobre as relações internacionais na contemporaneidade. Apesar de publicado em 2004, os anos que o separam do nosso presente não o fazem desatualizado, mas justamente reforçam a importância de se recorrer a fontes confiáveis em tempos em que as indefinições imperam. 

A indefinição é o ponto de partida privilegiado pelo autor. Vivemos em um século em que os referidos conceitos já não podem seguir preenchidos com o conteúdo de outrora e, portanto, precisamos refletir qual é o tom que orienta as relações internacionais contemporâneas. Não se pode mais falar em "impérios" como em séculos passados, e "nação" é uma concepção que se encontra desafiada pelo novo teor das ondas migratórias no planeta. Se Hobsbawm não possui uma resposta imediata sobre como, então, procedemos para definir o século XXI, o historiador certamente aponta por quais caminhos não devemos percorrer, sendo eles a xenofobia e a arrogância ocidental que acredita ser portadora da panaceia para os problemas de outros recantos do mundo. 

É importante ressaltar, portanto, que Hobsbawm é um crítico refinado da política internacional de países como Inglaterra e Estados Unidos. Somos apresentados ao outro lado das questões referentes às guerras no Iraque e no Afeganistão, por exemplo. Mas é preciso lembrar que a análise do autor é resultado da investigação histórica feita pelos princípios da ciência a qual faz jus. 

Desta forma, não é possível esperar de Globalização, Democracia e Terrorismo mera coluna de opinião, mas sim um trabalho fundamentado que se torna referência imprescindível aos que desejam ou necessitam de uma aula de história, geopolítica ou "atualidades". Difícil é ler Hobsbawm pela primeira vez e não querer continuar aprendendo com o legado deixado pelo autor. 

Este livro, portanto, é boa opção como primeiro contato e como norteador das futuras leituras. 

Globalização, Democracia e Terrorismo
Eric J. Hobsbawm
Companhia das Letras
2004
182 páginas.