segunda-feira, 16 de outubro de 2017

As bruxas Mayfair: A hora das bruxas Vol. I - Anne Rice

Anne Rice é uma autora contemporânea, natural de Nova Orleans, e responsável pelo livro cuja adaptação cinematográfica tornaria emblemática a dupla de vampiros interpretada por Tom Cruise e Brad Pitt no homônimo Entrevista com Vampiro. Entretanto, é dispensável dizer que os livros de Rice sustentam-se por si mesmos, tal qual a escritora que finca seus pés no território conhecidamente masculino da literatura de terror - desde Poe a King.  

Assim como demais gêneros literários, o terror e a fantasia promovem o afastamento de uns e a aproximação de outros, por vezes gerando a percepção de que para apreciá-los é necessária a afinidade máxima com o estilo. Se esse recado pode ser ignorado pela legião de fãs que Rice acumula inclusive em terras brasileiras, ele é bem-vindo àqueles que gostariam de acrescentar ao repertório o gênero de terror mas ainda não sabem onde buscá-lo. Se Poe é a referência mais clássica e King certamente a mais midiática, Rice combina sofisticação e modernidade e apresenta-se, portanto, como a perfeita escolha para quem deseja conhecer o terror sem abrir mão da qualidade literária. 

Em Bruxas de Mayfair, encontramos 500 páginas que percorrem os séculos XVII e XX com a história multi-situada da família Mayfair iniciada na Escócia, transcorrida pela França aristocrática e pelo Haiti colonial, até repousar na Nova Orleans e na São Francisco contemporâneas. Quem nos apresenta o compêndio de tantos séculos e lugares é a organização Talamasca, representada especialmente pelo emissário Aaron Lightner, que desde o século IX reúne informações sobre ocorrências sobrenaturais. A fim de conectar a história antiga da família Mayfair com a atual, prestes a ser vivida ao longo da obra, acompanhamos Rowan Mayfair, a bruxa mais jovem da tradicional família misteriosa. 

Por figurar tantos momentos e espaços distintos, observa-se o esforço de Rice em fornecer uma narrativa histórico-arquivística que nos leva aos séculos passados por meio dos manuscritos da Talamasca que acompanham a família Mayfair desde sua suposta origem. Aliada à narrativa do presente que por força da trama coloca personagens interagindo com os manuscritos tais quais o leitor, Rice fornece um tom altamente realista à leitura dos arquivos. Sentimo-nos como que lidando com arquivos verdadeiramente históricos e com um "sobrenatural" tão plausível que por isso mesmo assusta. Rice consegue criar uma complexa árvore genealógica cujas relações de parentesco devem permanecer claras ao leitor para a boa compreensão da história. E não pensem se tratar de muitos personagens citados mas poucos elaborados; nesta trama, os nomes não são meros vocativos. 

Proporcionando experiência singular do terror, Rice brinda a literatura com uma trama histórica totalmente voltada às poderosíssimas mulheres Mayfair. Esqueçam os chavões do terror, os exageros da violência e o sobrenatural caricato - traços muito comuns às produções audiovisuais do gênero. Em Bruxas de Mayfair temos a potência da tradição e o desconhecido que quer se revelar sem perder a profundidade. Temos o esforço, representado pela Talamasca, de ordenar o incompreensível. 

Feliz ou infelizmente, a parte contemporânea da trama, vivenciada por Rowan, é abordada no segundo volume, de mesmo título. Encerra-se o primeiro sem ter avançado no século XX. Há décadas e páginas ainda por virem para finalmente descobrirmos qual será a relação estabelecida entre Rowan e suas ancestrais. Apesar de extensa e documental, a leitura é dinâmica e essas características, somadas ao número de páginas, não devem espantar os interessados. 

As bruxas Mayfair: A hora das bruxas Vol. I
Anne Rice
Editora Rocco
1994
490 páginas. 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Tesouros de Curitiba e Outras Histórias - Valter Cardoso

 Estamos acostumados a ler histórias fantásticas que se passam numa França medieval ou em uma Londres contemporânea. Com histórias futuristas que se passam nos Estados Unidos já seculos à frente ou até mesmo com uma bela trama situada em Marte. Em suma, é sabido que a literatura não tem fronteira alfandegária, uma vez com o livro em mãos, viajamos para onde a história decidir nos levar. Entretanto, o quão acostumados estamos com o enredo que se passa em nossa cidade natal? A literatura sempre teve suas cidades expoentes e no caso da brasileira não seria diferente. Acentuar Curitiba no mapa literário, portanto, é uma consequência muito bem-vinda desta coletânea de 12 contos cujas histórias se passam na capital paranaense. 

O conto que nomeia o livro é o carro-chefe da leitura não só por ser o primeiro no índice, mas porque comprova ser possível transformar qualquer cidade com a potência criativa. Nele, somos apresentados ao aposentado Zulmiro que, na busca por emoções alheias à agência da previdência social, vê-se às voltas com uma Caça ao Tesouro iniciada em um bar da cidade. Após ter vencido um concurso de enigmas e ganhado um pager antigo, Zulmiro começa a receber instruções misteriosas a serem decifradas percorrendo pontos emblemáticos da cidade, como a Biblioteca Pública e a Rua Vinte Quatro Horas. Ao longo da leitura, sentimos o assombro que invade o aposentado e nos compadecemos da necessidade de termos uma aventura vez ou outra.

Combinando o futurismo tecnológico à historicidade dos locais curitibanos, somos levados a uma Curitiba que apesar de ainda estar por vir, demonstra reatualizar a velha fórmula das relações sociais entre privilegiados e esquecidos. Esse é o tom que perpassa "Bolacha Recheada", por exemplo, em que a fome de um catador de papel nos faz ponderar sobre a arrogância e o julgamento precipitado. 

Já em "A Jornada", a chuva outonal traz consigo a introspecção e a preguiça que assolam o personagem numa tarde fria. A Oficina de Criação literária, que o espera com calor contrastante à estação, desponta como motivação para encarar o mundo fora de casa. "Previsão do Tempo" também aborda a célebre questão climática de Curitiba, mas o faz de maneira divertida e inédita: junto à bagunça temporal das quatro estações ocorridas no mesmo dia (como diz a velha crença curitibana) está a bagunça temporal da data. Sol e chuva confundem-se tal qual passado e presente. 

"Tesouros de Curitiba e Outras Histórias" brinda-nos com uma homenagem singular à cidade. Nativo ou estrangeiro, todos estão convidados a provar do refrigerante de gengibirra enquanto caminham pelo petit pavê que faz deslizar suavemente pela leitura. 

Tesouros de Curitiba e Outras Histórias
Valter Cardoso
Editora Fragmentos
2016
150 páginas.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Globalização, Democracia e Terrorismo - Eric Hobsbawm

Eric Hobsbawm é célebre referência dentre os intelectuais historiadores. Nascido no Egito durante o domínio britânico, percorreu sua trajetória política e intelectual na Inglaterra e faleceu aos 95 anos em 2012. A longa trajetória é marcada pela produção de obras de continuidade do seu pensamento, como a coleção Eras (Das Revoluções, Do Capital, Dos Impérios e  Dos Extremos), e trabalhos mais pontuais como História Social do Jazz.

Globalização, democracia e terrorismo, porém, reúne dez conferências ministradas pelo autor que visam problematizar as questões emergentes do ataque às torres do World Trade Center, em 2001, na cidade de Nova York. Para Hobsbawm, o "11/09" não necessariamente se configurou como algo inusitado nas relações internacionais, mas escancarou que o corolário do século XXI é composto pela tríade nomeadora do livro. 

A coletânea é esclarecedora porque Hobsbawm decifra conceitos recorrentes no imaginário da história internacional, como "imperialismo" e "nacionalismo", mas o faz de maneira acessível e objetiva. O trunfo deste procedimento é possibilitar que o livro tenha uma maior aderência entre o público alheio às ciências humanas, mas que busca um esclarecimento sobre as relações internacionais na contemporaneidade. Apesar de publicado em 2004, os anos que o separam do nosso presente não o fazem desatualizado, mas justamente reforçam a importância de se recorrer a fontes confiáveis em tempos em que as indefinições imperam. 

A indefinição é o ponto de partida privilegiado pelo autor. Vivemos em um século em que os referidos conceitos já não podem seguir preenchidos com o conteúdo de outrora e, portanto, precisamos refletir qual é o tom que orienta as relações internacionais contemporâneas. Não se pode mais falar em "impérios" como em séculos passados, e "nação" é uma concepção que se encontra desafiada pelo novo teor das ondas migratórias no planeta. Se Hobsbawm não possui uma resposta imediata sobre como, então, procedemos para definir o século XXI, o historiador certamente aponta por quais caminhos não devemos percorrer, sendo eles a xenofobia e a arrogância ocidental que acredita ser portadora da panaceia para os problemas de outros recantos do mundo. 

É importante ressaltar, portanto, que Hobsbawm é um crítico refinado da política internacional de países como Inglaterra e Estados Unidos. Somos apresentados ao outro lado das questões referentes às guerras no Iraque e no Afeganistão, por exemplo. Mas é preciso lembrar que a análise do autor é resultado da investigação histórica feita pelos princípios da ciência a qual faz jus. 

Desta forma, não é possível esperar de Globalização, Democracia e Terrorismo mera coluna de opinião, mas sim um trabalho fundamentado que se torna referência imprescindível aos que desejam ou necessitam de uma aula de história, geopolítica ou "atualidades". Difícil é ler Hobsbawm pela primeira vez e não querer continuar aprendendo com o legado deixado pelo autor. 

Este livro, portanto, é boa opção como primeiro contato e como norteador das futuras leituras. 

Globalização, Democracia e Terrorismo
Eric J. Hobsbawm
Companhia das Letras
2004
182 páginas. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Senhor das Moscas - William Golding

A alegoria da vida em sociedade representada por um agrupamento humano que se vê distanciado da civilização é recorrente na ficção. A curiosidade sobre como se manifestariam os comportamentos outrora aprendidos, mas que agora são confrontados pela situação limite do isolamento e da ausência das instituições que os norteiam, parece compor a fórmula que combina grupo de pessoas e situações catastroficamente hipotéticas. 

Em algum sentido, demonstra a forma singular pela qual a ficção fala da filosofia contratualista. Aos nos depararmos com uma história sobre a queda de um avião numa ilha deserta e paradisíaca, ressoam em nossa memória ideias como o bom selvagem de Rousseau e o retorno mais próximo ao que poderia ser o estado natural da humanidade. Não é à toa, portanto, a escolha de Golding em inserir somente crianças no enredo, figurando as únicas passageiras do avião. Afinal, a infância é o estágio inicial da vida humana e quem sabe o mais próximo da ancestralidade natural do homem. 

Mas a obra de Golding torna obrigatório o uso das aspas em todas essas expressões acerca da naturalidade do comportamento humano, pois é evidente a sua perspectiva de que, dito resumidamente, a sociedade se arrasta. Não há ancestralidade a ser conhecida, mesmo que numa ilha deserta repentinamente ocupada por crianças, mas há o total inverso: uma sociedade que se revela como nunca, normas sociais e padrões de comportamento que atingem o ápice de suas expressões. Situada no curso da Segunda Guerra Mundial, a história do autor transmite a mensagem de que são poucos os motivos para termos esperança em nosso bom selvagem há tempos reprimido. Produziram-se pessoas, inclusive as crianças, inclinadas ao poder e à violência, e as instituições que cristalizam essa conduta humana não precisam estar presentes concretamente na ilha, pois seus princípios estão. Em suma, as instituições estão em todos. 

Como exemplos óbvios da institucionalidade do comportamento, pode-se indicar as típicas figuras de liderança que emergem do grande grupo de crianças e os rituais elaborados para os momentos de falar ao grupo - remetendo-se explicitamente ao parlamento britânico. Há também os rituais conduzidos em relação à alimentação e a escolha caricata da criança a ser tratada como diferente e incapaz: o menino gordo, asmático e que usa óculos. 

A Ilha do Senhor das Moscas, pode-se argumentar, está mais para o estado hobbesiano de ultra violência do que para a pureza natural de Rousseau. Violência que aguarda ser posta a termo a partir do contrato entre homens e Estado que virá para ordená-los. Mas Golding nos convence, porém, de que o Estado violento já está lá, e não há isolamento que o questione. A Ilha apenas o revela. Não há retorno para a humanidade - aonde quer que ela vá, carregará os princípios de sua origem introjetados em cada um dos envolvidos. 

A leitura do livro é dinâmica devido aos seus doze capítulos serem compostos, em média, por vinte páginas cada. A predominância do discurso direto e o baixo grau de introspecção também parecem contribuir para a dinamicidade. É excelente indicação para os interessados em reflexão política e que, além disso, desejam incluir nobelizados em sua lista de leitura: William Golding recebeu o Nobel de Literatura pelo conjunto da obra em 1983. "Senhor das Moscas" foi publicado em 1954, após recusas de diversas editoras. Já falecido, Golding é um autor inglês de presença inquestionável no panorama da literatura universal. 

Senhor das Moscas
William Golding
Editora Alfaguara
2016
224 páginas

terça-feira, 16 de maio de 2017

Frida: a biografia - Hayden Herrera

Frida Kahlo é um símbolo que hoje estampa bolsas, roupas e porta copos. O fenômeno difusionista da imagem da artista apela à identificação do público com suas cores vibrantes e à impressão de que certamente se trata de uma forte figura histórica. Entretanto, se a reprodução em massa da imagem de Kahlo nos brinda com a aproximação desse símbolo, é certo que ela apaga os vestígios de quem foi a Frieda Kahlo mulher.

Realçar os vestígios é, possivelmente, o coração do exercício biográfico sobre uma figura proeminente. Hayden Herrera, historiadora da arte, lança-se ao desafio de condensar a complexa Frieda em 600 páginas, procurando por quem era a mulher antes de ser o mito. Curiosamente, aí entrelaçam-se os fatores que, muito peculiares à pintora, fizeram-na ser tanto a pessoa quanto a divindade em que se transformou, ou seja, os dois grandes acidentes de sua vida: a terrível batida entre bonde e ônibus, e ter conhecido Diego Rivera.

Kahlo mesma assim definiu a vontade do destino em aproximá-la do estabelecido muralista mexicano, quando ela tinha apenas 15 anos e era aluna na Escola Nacional Preparatória. Na ocasião, Rivera havida sido contratado para fazer um mural em um dos auditórios da Escola, já demonstrando considerável estabelecimento na carreira de pintor e expressividade entre os meios políticos e culturais do México. Com 36 anos e casado, repentinamente Rivera viu-se interpelado por uma insistente adolescente que desejava uma opinião profissional sobre suas primeiras pinturas.

Mas a potência artística de Frieda, nascida sob este nome em 1907 mas estrategicamente alterado para "Frida" ao descobrir que Frieda era um nome recorrente na Alemanha totalitarista, já havia dado indícios desde a infância. Filha de um fotógrafo austríaco que partilhava grande interesse por filosofia e de uma camponesa mexicana religiosamente católica, a pintora uniu o gosto do pai pela manifestação visual à estética da mãe tipicamente híbrida do "catolicismo indígena" do México. O resultado foi uma predisposição a desenhos anatômicos e muitas cores, demonstrando o primeiro interesse profissional de Frida que era desenhar as gravuras para livros didáticos de biologia.

Com o pendor às artes, seus pais sabiam que o lugar da então garota era na Escola Preparatória, a mais conceituada do México. Esse foi o lugar onde Frida deu asas à imaginação e aos posicionamentos políticos, tendo participado de grupos marxistas. Mas a verdade é que até o acidente que debilitaria sua saúde até o fim da vida, Frida ainda não sabia para onde direcionar a sua pulsão artística. Tornar-se pintora profissional não foi um cálculo, mas a consequência de se ver presa a uma cama.

Herrera nos conta que em 1925 os ônibus estavam começando a circular pelas cidades mexicanas, tornando os bondes opções preteridas para o transporte. Frida foi vítima de uma ironia extremamente de mal gosto ao decidir sair do ônibus lotado em que estava porque havia se dado conta de que esquecera seu guarda-chuva, tendo ido buscá-lo e então trocado para o ônibus que se chocaria com um velho bonde de madeira. A pintora estava sentada em um banco, e tal foi a força da colisão que quando se deu conta ela estava estirada no chão, quase despida devido às roupas rasgadas, com o corpo coberto de purpurina dourada que voara da sacola de outro passageiro e, o mais assustador, com uma barra de metal que entrava pelo seu quadril e saía pela sua vagina. Frida beijara a morte neste dia e desde então a manteve por perto.

Foi o pai, Guillermo Kahlo, que teve a ideia de instalar uma tela de pintura adaptada à cama da filha. Frida já havia contraído poliomelite quando criança e, portanto, estava familiarizada com a situação de se ver privada de todas as atividades das quais gostava - correr, andar de bicicleta e jogar futebol. Mas aos 18 anos de idade teve início o seu calvário das dores, das dezenas de intervenções cirúrgicas, dos abortos espontâneos, da gangrena dos dedos do pé até a amputação de sua perna, a qual foi finalmente sucedida pela sua morte, em 1954. Frida Kahlo viveu sentindo dor por 29 anos. Sua dor foi concretíssima, lancinante e nunca esteve sujeita a qualquer discurso "superacionista" falsamente atribuído à pintora. Em seus diários, respeitosamente perscrutados por Herrera, Frida expressava sua depressão, os diversos pensamentos (e tentativas) de suicídio; falava de sua luta para dar continuidade a sua figura, vaidosamente criada, da mulher de roupas tehuanas, cabelos trançados e personalidade espontânea.

O sofrimento causado por amar Diego Rivera também ecoava nos diários. Casados entre os períodos de 1929-39, e 1940-54, intercalados por um divórcio resultante de caso amoroso entre Rivera e uma das irmãs de Kahlo, a pintora foi refém da desmedida do próprio amor, e somente uma pessoa tão espetacular como ela saberia metaforizar o "acidente" de conhecer Rivera com o acidente entre um opulento ônibus e um frágil bonde de madeira, tornando explícita a ilustração do relacionamento entre um homem de aproximadamente 100 quilos e 1,80cm de altura, e uma mulher de aproximadamente 50 quilos e 1,60cm. Mas a opulência e a fragilidade vão além da estatura física. Rivera era o único capaz de deixar Frida vulnerável, de apaziguar a mulher independente e trazer à tona o lado carente da esposa. Herrera, analisando cartas e depoimentos, não nos deixa dúvidas de que Frida era capaz de tudo por Rivera, mesmo sabendo que seu marido jamais sossegaria ao lado de uma única mulher - e após a morte de Frida, Rivera casaria pela quarta vez, e as amantes somariam-se indefinidamente. A relação do casal nos revela, infelizmente, o poder da estrutura machista numa relação afetiva em que frequentemente se delegava à Frida o lugar da fragilidade, da emoção, da aceitação e dedicação incondicionais em contraste com o lugar do hombre mexicano altamente sedento por desejos sexuais, sucesso profissional e brilhantismo político de Diego Rivera. Frida Kahlo tinha plena consciência da situação e sofreu tentando encontrar maneiras de adequá-la ao genuíno amor que sentiu por Diego até a morte por broncopneumonia, com suspeitas de overdose medicamentosa, em seu quarto na célebre Casa Azul de Coyoacán.

Outros episódios relevantes da vida da pintora, como o asilo político dado a Trotsky e sua esposa, bem como o caso amoroso com o revolucionário; as viagens aos Estados Unidos e a consolidação do anti-imperialismo de Kahlo, muito emblematicamente expresso na relação da pintora com a cidade de Detroit, símbolo da maquinização da vida e irremediavelmente associada à mecânica dos coletes ortopédicos utilizados por Frida; o asilo dado a refugiados espanhóis da ditadura franquista; a tragicômica relação dela com os surrealistas franceses, especialmente André Breton; são todos episódios minuciosamente explorados por Herrera, sempre acompanhados da análise das pinturas de Kahlo.

Herrera torna a "Frida mulher" mais próxima de todas nós, produzindo uma empatia de arrancar lágrimas no decorrer de alguns capítulos, mas também nos faz compreender a divinização da pintora, o seu status de "rainha" do México. Frida Kahlo desbravou muito sobre o que é ser mulher no meio artístico, mas principalmente sobre o que é ter a vida ceifada muito jovem não pela morte em si, mas pela dor angustiante que a acompanhou por dias a fio. A biografia nos permite olhar para os tantos autorretratos feitos por Kahlo e reparar que força e tristeza não são excludentes, mas a mistura mais preponderante que conforma suas telas. Não é à toa que Frida acharia estranho ser considerada "surrealista" pelo pai do movimento francês, e diria que na verdade ela "apenas pintava a sua vida como era", sendo suas pinturas, portanto, altamente realistas. É que ao combinar força e tristeza com tanto poder, Kahlo revelou um universo tão singular que só poderia ser onírico; que só poderia, de fato, ser ilustrado por uma pessoa como ela. "A arte de Frida é um laço de fita em torno de uma bomba", diria Breton.

O livro de Hayden Herrera é um privilégio, um presente a todas e todos. É a fonte confiável que desejamos quando queremos conhecer a vida e obra de uma lenda como Frida Kahlo. Herrera acerta espetacularmente bem ao priorizar uma sequência cronológica que simetriza os fatos da vida e as pinturas de Kahlo; ao adicionar ao livro as principais fotografias da família Kahlo e as reproduções das pinturas. É um nível elevadíssimo do que seja uma boa biografia, estabelecendo um padrão alto de expectativa para a leitura de outros trabalhos biográficos. É uma leitura densa e demorada, mas que compensa cada hora passada dentro do universo real-onírico de Frida Kahlo. Quem lê, nunca mais verá uma pintura da artista com os mesmos olhos; encerra-se o livro como quem sai de um ritual - algo radical foi mudado em nós, leitores. "Frida: a biografia" é a perfeita definição de um portal.


Frida: a Biografia
Hayden Herrera
Editora Biblioteca Azul
2011
620 páginas


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

Somando um pouco mais de 150 anos desde a primeira publicação, não há dúvidas quanto a universalidade de "Alice" e o deslumbre da terra maravilhosa desvendada pela garota. No decorrer deste um século e meio, crianças e adultos continuaram responsivos à obra que extravasou os limites da literatura e repercutiu no teatro e no cinema. Personagens como a Rainha de Copas e o Chapeleiro Maluco consolidaram-se num imaginário popular que continua valorizando o papel da fantasia a despeito de qualquer crença contemporânea de que o imaginativo está fadado ao desaparecimento.

"Alice" é, antes de tudo, uma obra altamente visual - atributo que talvez tenha sido o responsável pelo sucesso de adaptações como o clássico da Disney de 1951. Certamente não foi ao acaso que Carroll escreveu essa história apelando ao sentido da visão, pois apresentar ao leitor um universo que somente os olhos de Alice percebem requer o exercício de tornar visível aquilo que seu personagem vê, ou seja, uma espécia de dupla visualização. Toda a descrição do País das Maravilhas é ancorada, portanto, na potência das cores: um coelho branco, rosas carmim, pote de geleia laranja e lagarta azul, para citar alguns exemplos. O exagero das proporções também é outro atributo visual marcante e os seres do País tendem a ser apresentados também a partir desta ênfase - um cachorrinho com olhos muito grandes, um gato cujo sorriso é enorme e um flamingo muito magro,

De fato, tal era a preocupação de Carroll com os atributos visuais do livro que esta edição da L&PM traz as ilustrações feitas pelo autor em 1866, e um prefácio no qual ele comenta a polêmica da época em que decidira publicar a versão de "Alice" em gravuras e cobrando apenas um xelim pelo livro para garantir que as crianças tivessem acesso a ele. Sua editora original indica ter se posicionado receosa quanto à recepção de um livro de gravuras e Carroll decide distribuí-lo por um valor que beira à gratuidade a fim de evitar que "os pequenos, para quem a obra foi escrita", não o adquiram.

Mas "Alice" também é sobre transformação e as passagens em que a menina cresce ou diminui freneticamente deixam clara a intenção do autor em problematizar os momentos em que nos percebemos pequenos ou grandes demais para um determinado lugar. Trata-se de uma angústia experimentada por crianças e adultos e é justamente o ponto que atrai o público mais velho para o livro, pois  adaptar-se a uma situação nova demanda até os recursos metafóricos como ingerir um bolo que nos faça ficar maior ou menor.

A edição de bolso da L&PM, portanto, é ótima para quem gosta de carregar um livro que não faça volume e cuja leitura seja rápida. Excelente opção para aqueles que gostam de escapar de um entorno entediante.

Alice no País das Maravilhas
Lewis Carroll
L&PM Pocket
2006
172 páginas

domingo, 15 de janeiro de 2017

Ensaio sobre a Lucidez - José Saramago

Ensaio sobre a lucidez é uma trama política ambientada na mesma cidade fictícia que, há quatro anos, fora acometida pela cegueira branca generalizada descrita em Ensaio sobre a cegueira. Não se tratando de uma "série" em que a leitura deste último seja obrigatória, é possível apreender Ensaio sobre a lucidez por si mesmo, mas ao sermos reapresentados aos personagens principais que haviam perdido a visão na outra obra, a curiosidade pelo entrelaçamento total dos dois livros pode mobilizar a leitura de ambos.

O livro inicia com o dia de eleição na capital onde, por estar sob chuva fortíssima, faz com que a assembleia eleitoral suspeite do comparecimento às urnas. Para a surpresa dos políticos envolvidos e representantes dos partido de direita, de centro e de esquerda; há uma presença em massa dos eleitores, mas o resultado é catastrófico: mais de 70% dos votos foram brancos.

Em seguida, iniciam-se o estado de sítio da cidade, em que as figuras institucionais relevantes abandonam a capital, mas cercam a população deixando-a por conta de si; e as tentativas trágicas, mas ao mesmo tempo risíveis, do primeiro ministro e do ministro do interior em encontrarem um culpado pelo estado de rebelião excepcional sendo experimentado naquele momento. Da inspeção ilegal de grupo de pessoas a uma bomba plantada no metrô pelo próprio governo, até finalmente encontrar pessoas que se encaixem perfeitamente na posição de suspeitas, a mensagem de Saramago, a todo momento sarcástica, parece nos encaminhar para a constatação desesperadora de que antes de ser revolucionário, o voto em branco pode fazer com que as instituições funcionem do mesmo jeito de sempre, mas agora mais potencializadas do que nunca no autoritarismo e na burrice. Antes de miná-las, o voto em branco parece ter-lhes dado mais vigor; e para uma população que já havia sido cegada anteriormente, o Estado agora parece imbatível. Aqui, o questionamento sobre o simbolismo da cor branca nas duas obras referidas é evidente. Assumindo que o branco é aquele que reflete, o que está sendo refletido na cegueira e no voto brancos?

A leitura de Saramago é densa e requer que se habitue ao português de Portugal, sendo necessária a consulta em dicionários, além do famoso estilo do autor de não utilizar travessão ou demais pontos que não sejam os finais. Para que não se confundam as falas e seus falantes, ou perguntas com respostas, a leitura merece mais atenção - mas está longe de ser impossível.

Ensaio sobre a lucidez
José Saramago
Cia. das Letras
2010
327 páginas